Minha mãe me contou essa história quando eu era pequeno, ocasionalmente eu me lembrava dela, nessas ocasiões eu sentia arrepios perdia o sono por algumas noites.
Enquanto morava na capital, longe das áreas rurais de onde vinho, minha mãe tinha uma vizinha nervosa e amarga.
A vizinha se chamava Norma, era uma mulher solitária que tinha se mudado de uma vila do interior pra cidade grande carregando apenas seus animais de estimação, que foram motivo o suficiente pra minha mãe começar uma amizade com a mulher, apesar da personalidade difícil dela.
Um dia, a mulher ficou doente, e perguntou se minha mãe poderia vir até sua casa e cuidar de seu cachorro e papagaio. Ao ver em que condições a mulher se encontrava, minha mãe se ofereceu a dormir na casa dela, pro caso dela precisar de alguma ajuda durante a noite.
Minha mãe conta que chegou a perguntar o que ela estava sentindo, Norma só respondeu que não vinha conseguindo dormir o bastante, que estava cansada o tempo todo, e a conversa morreu aí.
Norma ficou no seu quarto enquanto minha mãe dormiu num quarto ao lado, ou pelo menos tentou dormir.
Naquela noite, minha mãe diz ter ouvido um barulho metálico vindo da cozinha, um tilintar leve, como uma caixinha de música, ou um daqueles sinos que as pessoas penduram na janela sendo soprado pelo vento.
Ela se levantou e foi investigar, mas era uma noite escura e entre as velas já apagadas e a falta de luz elétrica na casa, não se via mais que um palmo à frente do nariz.
Minha mãe voltou pro quarto, e aterrorizada, sentou na cama, no escuro, tentando imaginar o que poderia fazer aquele som. Ela decidiu que deveria dar uma olhada na vizinha.
A porta do quarto de Norma se abriu com um rangido lento, e na escuridão, bem como minha mãe, Norma estava sentada na cama, olhando fixamente pra frente, branca como um lençol. Minha mãe lhe perguntou se ela também havia ouvido o barulho – “Todas as noites é assim”, ela respondeu com um sorriso triste.
Norma disse que se deixasse pratos sujos na pia, como havia deixado naquele dia, algumas noites ela podia ouvir barulhos como se tudo estivesse sendo lavado, que ela se levantava da cama apenas pra não encontrar ninguém na cozinha.
Enquanto conversavam ambas ouviram a água da pia de sua área de serviço espirrando, como se alguém estivesse lavando suas roupas. Elas chegaram a se levantar e, juntas, foram ver se tinha alguém no quintal, não encontraram ninguém.
Minha mãe puxou o colchão da cama que lhe fora preparada para o chão, arrastando-o até o lado da cama de Norma, fechou o quarto em que as duas estavam e se deitou, mal conseguindo dormir naquela noite. Ela se levantou cedo na manhã seguinte pra ver os animais, a vizinha ainda dormia, abriu a porta do quarto devagar e deixou a casa da vizinha arrumada, com tudo em seu devido lugar, voltando pra sua própria casa pra começar um novo dia de tarefas normais de casa.
Naquela tarde a vizinha veio em sua casa pra agradecer a ajuda, e as duas começaram a conversar. Norma disse que vinha se sentido tão insegura com as experiências vividas naquela casa, que pensou que se contasse pra outras pessoas, seria taxada como louca - e, até a última noite, teria concordado com todos que lhe colocassem numa camisa de força.
Porém, agora ela tinha certeza que outras pessoas também ouviam os sons, ela ainda era normal.
Baixando a voz e falando quase num cochicho, Norma contou que numa noite, quando tinha acabado de se mudar para a nova casa, bem quando se preparava pra dormir, ela entrou em seu quarto e encontrou uma mulher parada lá dentro.
O que ela viu foi uma mulher normal, nada de vestidos brancos esvoaçantes ou de corpos transparentes, apenas um rosto amarrotado de quem esteve chorando.
Antes que pudesse ter qualquer reação, a desconhecida se virou e perguntou numa voz clara – Você também mora aqui? – enquanto tomava um passo em direção à dona da casa.
Desnecessário dizer que Norma bateu a porta na cara da pobre aparição e se escondeu na sala, acordada a noite toda.
Minha mãe disse que ela deveria se mudar, a vizinha disse que já ter ligado pra filha de manhã, bem quanto tinha acordado, e que, se possível, no outro dia já estaria fora dali. Minha mãe preparou uma cama, e ela dormiu na nossa casa.
Naquela noite, certo como um relógio, o barulho veio de novo, mas o que quer que fosse estava na casa da vizinha. Você realmente teria que fazer silêncio pra ouvir alguma coisa se estivesse na casa da minha mãe, e de jeito nenhum alguma das duas iria sair pro nosso quintal pra tentar ouvir melhor.
Uma vela se acendeu dentro da casa da vizinha, perto de uma das janelas que dava direto pra sala da minha mãe. Elas fecharam as cortinas e, olhando só pelas frestas, observaram enquanto a luz se movia dentro da casa, como se alguém estivesse andando pela casa.
Minha mãe, tentando fazer pouco caso da situação disse:
- Acho que está sentindo sua falta lá hein?! Melhor você voltar!
- Tenho certeza que ainda vai aparecer outra pessoa pra essa coisa brincar. – as duas dividiram um riso nervoso.
A luz foi ficando mais fraca, até apagar, e isso foi tudo que aconteceu naquela noite.
A filha de norma e o marido apareceram com uma caminhonete, e até meio dia já tinham carregado os poucos pertences da casa, eles nunca perguntaram o porquê da mudança repentina, ou da pressa. Norma agradeceu minha mãe, e perguntou se ela poderia cuidar de seu cachorro e seu papagaio, coisa que ela ficou feliz em fazer.
Alguns dias depois, minha mãe acordou suando frio, era o barulho de novo, dessa vez estava perto, dentro de casa. Ela se levantou da cama, e fez seu caminho por todos os cômodos, acendendo as luzes da casa, que ao contrário das da vizinha, eram luzes elétricas.
Ela andou até a cozinha, e na escuridão, ela viu alguma coisa, a origem do som metálico que tirou o sono de sua vizinha tantas noites: o papagaio.
Minha mãe chegou a telefonar para a filha alguns meses depois, ela soube que Norma continuou sem dormir na casa nova, eventualmente sofreu um colapso nervoso e teve que ser internada pra que pudesse ter algumas horas de sono. Se Norma chegou a explicar o seu sofrimento, ou se dizia algo nesse estágio, sua filha não disse, ou teve vergonha de dizer.
Minha mãe nunca soube dizer se o que elas ouviram era apenas o som do papagaio, ou alguma coisa mais.
Quer dizer, o papagaio repete sons de coisas que ele ouve várias vezes, mas, em específico, aquele som de tilintar? Ela disse que nunca teve a mesma qualidade metálica como que ela ouviu na casa da vizinha. No final, imitação do papagaio era um assovio, por mais leve que fosse a imitação de um sino, ainda soava como um assovio.
Por outro lado, é muito fácil fazer esse tipo de julgamento em plena luz do sol. Ninguém sabe o que são noites e mais noites ouvindo esse mesmo som. Qualquer que fosse sua origem, depois de algumas noites em claro, quem pode saber o que ele poderia fazer com a mente de uma pessoa? O quanto a pessoa ouviria ele dentro ou fora de seus ouvidos, ou o quanto a pessoa poderia ver mulheres espectrais dentro ou fora de sua cabeça.
O problema é que nada disso explica a luz que elas viram na janela aquela noite. Nem explica, como minha mãe disse ter visto na manhã que dormiu lá, a pia vazia, e os pratos ainda úmidos no escorredor.
domingo, 5 de fevereiro de 2012
terça-feira, 10 de janeiro de 2012
Sindicato da Limpeza
Uma grande batalha tinha acabado no coliseu, sob o olhar dos espectadores, homens heróicos vestindo pouca ou nenhuma armadura guerreavam entre si ou enfrentavam bestas terríveis, banhando-se de sangue em busca de glória e riqueza ante as massas ou mesmo da simples liberdade.
Ou pelo menos era assim que acontecia alguns anos atrás.
Era ainda o meio da tarde e todos os espectadores já tinham deixado o lugar. Alguns dos gladiadores estavam agachados no canto dos muros, escondendo-se do sol. Quase todos eles tinham barrigas enormes e estavam muito preocupados com suas pressões sanguíneas nesse calor.
Por toda a arena as equipes de limpeza trabalhavam como formigas. A maioria catava saquinhos de pipoca e cachorro quente largados nas arquibancadas, enquanto uns poucos andavam pelo chão de terra batido da arena, segurando sacos de lixo e bastões com pregos na ponta.
Aquela tarde tinha sido um show especialmente empolgante na verdade, um dos gladiadores tinha derrotado cinco oponentes, deixando um rastro de cadáveres decepados por onde passou.
Porém, no fim o homem se abaixou, apoiando-se nos seus joelhos, com um som chiado ele tomou um grande fôlego e morreu onde estava. Mais uma triste vítima desse monstro chamado sedentarismo, tinha sido feita, um inocente, ignorante dos perigos escondidos entre as almofadas de sofá e cada pedaço de frango frito.
Ele era com certeza um guerreiro realmente formidável, que, para felicidade generalizada da equipe de limpeza, não só tinha espalhado sangue, braços, dedos e tripas de seus inimigos pra todo lado da arena, como também acabou deixando de presente o cadáver de um homem gordo, de cento e vinte quilos completamente cobertos de óleo, pra ser arrastado pra fora da arena.
A alegria dos faxineiros era perceptível em cada rosto mal humorado e no silêncio generalizado em que todos trabalhavam – com exceção do velho Postumus, que, feliz, assoviava e dançava num ritmo animado que lhe tinha surgido na mente como um relâmpago!
Mas, claro, muitas outras vozes também lhe surgiam na cabeça como relâmpagos, e, assim como não são dignas de serem narradas todas as vezes que esses dizeres mentais lhe fizeram vir trabalhar pelado, também não será narrado esse evento em particular. Temos a esperança que por mais musical que o acontecimento em questão seja, o velho Postumus inconscientemente compreenda essa omissão como uma expressão sincera de preocupação e apoio.
No meio da terra batida, porém, dois amigos discutiam, ou um amigo discutia e o outro fingia dar atenção:
- Não olha, você me entende, tenho certeza. Eu não estou dizendo que esse é um trabalho ruim, mas...
- Isso é exatamente o que você está tentando dizer. – Tiberius olhava pro chão tentando decidir como começar a varrer uma massa vermelha estranha.
- Não, não! O que eu estou dizendo é que esse trabalho poderia ter mais vantagens, entendeu? Alguma perspectiva, crescimento na carreira... – Disse Gaius, tentando encontrar coisas pra reclamar enquanto segurava, espetado no garfo de lixo, um braço humano inteiro decepado.
- Você esqueceu um pedaço. – Tiberius apontou pra um dedo faltando na mão.
- Eu sei, ainda não achei esse. Enfim, quero dizer, estamos nesse negócio a o que? Dez? Doze anos?
- Onze. - Tiberius varria o chão sem olhar o amigo.
- Onze anos! Esses espetáculos de gladiadores não são mais a mesma coisa, eles não vão melhorar, me entende? O público não quer saber disso mais?! Você não se preocupa com isso? – Gaius apontou o garfo na direção de Tiberius, fazendo o braço espetado esticar o indicador em sua direção.
- Sinceramente, acho que você tá reclamando de barriga cheia, nosso trabalho nunca foi tão fácil. Lembra daquela semana de batalhas Persas? Eu virei noites nessa porcaria pra dar fim naqueles elefantes mortos! Foi quase uma semana até alguém sugerir espetinhos de graça pro público!
- Você perdeu o fio da meada. Se hoje em dia o problema se resolve só arrastando a sujeira pra fora da arena, quem diabos vai precisar de faxineiros especializados em arenas gladiatoriais? – Gaius colocou o braço decepado no saco de lixo.
- Opa, opa, opa! Faxineiros não! Profissionais de limpeza e organização de eventos.
- Tanto faz. Eu tinha sonhos maiores caras, eu – Olha aí o dedo bem embaixo de você! - eu esperava subir na vida! Quem sabe algum dos nobres não ficaria impressionado com nossos serviços aqui e contratasse a equipe pra organizar uma orgia?
- Ouvi dizer que a grana preta está naqueles banquetes que as pessoas comem até vomitar. – Tiberius disse pelo canto da boca, olhando rapidamente em volta se outro alguém tinha ouvido.
- Oh, nem me diga, como eu sonho em limpar vômito do mármore! Mas não! Temos que ficar presos nessa espelunca! Nem a ralé da cidade vêm nisso mais!
- Olha, achei uma mão decepada com um anel! – Disse Tiberius limpando a poeira de uma mão decepada.
- E eu não culpo ninguém! Quem diabos pagaria pra ver dois gladiadores gordos, correndo em círculos fugindo um do outro, até que um tem um enfarto e cai morto? – Gaius olhava com desprezo pro único cadáver completo caído na arena.
Quatro homens, com nenhuma vontade de se sujarem, discutiam em volta do presunto vencedor como iriam encaixar aquele belo corpanzil no pequeno bueiro reservado para os dejetos humanos bem no centro da arena. O cara que resolveu o problema dos elefantes foi chamado, mas descobriram que sua criatividade era um tanto quanto repetitiva, e no caso, bastante antropofágica.
- Nisso eu tenho que concordar. Eles realmente ficaram largados depois que proibiram o uso de animais não é? Nada faz um homem entrar em forma quanto uma hiena faminta potencialmente correndo atrás dele toda semana.
Gaius tomou a mão decepada das mãos de Tiberius (oh, a ironia!) e puxou o anel até perder o fôlego. - Cara, deixa esse anel pra lá, o braço do gorducho já inchou, é de latão essa porcaria. – Disse antes de jogar a mão num dos homens que agora tinham prendido metade do gordão no bueiro.
- Lembra daquela vez que um cara foi pisoteado por uma girafa? Aquela foi uma sujeira a mais que eu não me importei de limpar! – Tiberius disse, num tom de confissão ao amigo, que o tomou pelo ombro com um tapa amigável nas costas.
- Viu só? Você também sente falta dos velhos tempos! Quando havia mais oportunidade!
- Nah, eu só odeio esses babacas oleosos de armadura que acham que vão ganhar a liberdade matando alguém.
Um dos gladiadores encostados na parede arrotou, enquanto o outro tentava se levantar – embora sua bunda imensa não o permitisse.
- Tudo que eu estou dizendo é que temos que pensar em alguma coisa. Organizar o pessoal, essa merreca não paga a indignidade que é nosso trabalho! Eu tenho mulher e filhos pra sustentar!
- Bom, eu só tenho um gato, mas se estamos falando de um novo plano de assistência dentário, eu estou contigo!
- Se vamos fazer isso, precisamos mobilizar os companheiros proletários!
- Chega de opressões imperialistas da classe dominante! - Tiberius franziu a testa - Onde é que a gente aprendeu essas palavras?
Gaius largou os sacos de lixo e andou até o centro da arena. Os quatro homens brigavam sobre quem era o culpado de entupir o bueiro, enquanto Gaius fez seu caminho entre eles e subiu nos ombros do cadáver entalado. Com o garfo de lixo ele bateu no capacete do gladiador morto, fazendo barulho como um sino e gritando pela atenção de todos.
- Companheiros! Já não estamos cansados de limpar o que nos dizem pra limpar, quando nos dizem pra limpar?
Os homens lentamente se viravam dando atenção ao maluco em cima do cadáver.
- Por acaso existe alguém que pode ser chamado de dono desse coliseu, considerando que todo esse espetáculo ridículo só existe por causa do suor de nossas testas? – Gaius olhou preocupado para as armas ainda jogadas no chão perto dos guerreiros - E pela colaboração desses bons companheiros fisicamente incapacitados!
Os gladiadores emitiram um rumor de aprovação
- Vocês já não estão fartos de tanto desrespeito? Já não se sentem motivados a se juntar a mim nessa revolução?
- É! Revolução! – O cara da idéia dos elefantes arrancou sua camisa e colocando-a em chamas na ponta de um garfo de lixo.
- Um pouco menos motivados que aquele cara, digo.
Um dos homens fez um sinal de reprovação com a cabeça e guiou o rapaz sem camisa pra parte interna do coliseu, dando tapinhas compreensivos em suas costas.
- Pois eu digo que é hora de tomarmos o que é nosso! Vamos começar a dizer as pessoas o que e quando nós vamos limpar!
As pessoas tiravam suas luvas e concordavam a plenos pulmões com cada frase.
- Temos que nos organizar em volta do que fazemos de melhor! Vamos utilizar esse espaço como bem entendermos! Vamos nos organizar em volta da limpeza e vamos limpar os bolsos dessa cidade!
- Nem todo mundo é bom em limpeza!- Uma voz ecoou solitária da arquibancada.
- Como? – Gaius apertou os olhos pra enxergar o homem na última fileira de assentos
- Eu disse que nem todo mundo é bom em limpeza! O Lucius por exemplo é muito bom em dança moderna interpretativa. Vamos nos organizar em volta disso também? – O homem apontou pra outro que dançava incontrolavelmente ao som de algo que ninguém podia ouvir.
As pessoas começaram a conversar entre si em dúvida.
- Ahn... Claro, claro, podemos encontrar uso pra isso mais pra frente. Eu acho.
- E quanto aos vendedores de salgadinhos? Esse negócio de limpeza é só um bico pra mim sabe? – Disse um homem segurando um algodão doce em cada mão.
Tiberius ergueu os braços ao lado do amigo, pedindo atenção:
- Todos aqui terão seu papel no movimento! Precisamos decidir o nosso nome!
- Frente unida dos trabalhadores da higiene! – um dos homens na arena gritou.
- Esse vai servir. – Tiberius sorriu pro rapaz.
- Não! Nós temos que ser os Trabalhadores Unidos na Frente Higiênica! Faz mais sentido que o título diga pra que viemos, não quem somos! – Um faxineiro da arquibancada gritou.
- Mesmos porque não somos todos trabalhadores da higiene. – Gritou concordando um pipoqueiro na arquibancada.
- Vocês são todos idiotas! Nós somos os Trabalhadores Higiênicos Unidos em Frente! – um faxineiro gritou levantando um esfregão.
- Você deve estar louco homem! Claramente esse é nosso hino, não o nosso nome! – Respondeu um dos faxineiros da arquibancada.
Quando um homem agarrou outro pelo colarinho, e outros dois começaram a discutir se o hino deveria ser em Lá ou em Ré, Gaius novamente bateu no capacete do cadáver, que tinha descido alguns centímetros pra dentro do bueiro.
- Seremos o Sindicato da Limpeza! – Gaius deu um pulo, e o cadáver deslizou lentamente pra dentro do bueiro, até desaparecer completamente, fato que arrancou palmas de todos os presentes.
- Que ótimo que todos gostaram tanto assim do nosso nome! A partir de amanhã, teremos mudanças por aqui. Coloquem os gladiadores pra correr voltas na arena! E cortem o açúcar deles!
Ou pelo menos era assim que acontecia alguns anos atrás.
Era ainda o meio da tarde e todos os espectadores já tinham deixado o lugar. Alguns dos gladiadores estavam agachados no canto dos muros, escondendo-se do sol. Quase todos eles tinham barrigas enormes e estavam muito preocupados com suas pressões sanguíneas nesse calor.
Por toda a arena as equipes de limpeza trabalhavam como formigas. A maioria catava saquinhos de pipoca e cachorro quente largados nas arquibancadas, enquanto uns poucos andavam pelo chão de terra batido da arena, segurando sacos de lixo e bastões com pregos na ponta.
Aquela tarde tinha sido um show especialmente empolgante na verdade, um dos gladiadores tinha derrotado cinco oponentes, deixando um rastro de cadáveres decepados por onde passou.
Porém, no fim o homem se abaixou, apoiando-se nos seus joelhos, com um som chiado ele tomou um grande fôlego e morreu onde estava. Mais uma triste vítima desse monstro chamado sedentarismo, tinha sido feita, um inocente, ignorante dos perigos escondidos entre as almofadas de sofá e cada pedaço de frango frito.
Ele era com certeza um guerreiro realmente formidável, que, para felicidade generalizada da equipe de limpeza, não só tinha espalhado sangue, braços, dedos e tripas de seus inimigos pra todo lado da arena, como também acabou deixando de presente o cadáver de um homem gordo, de cento e vinte quilos completamente cobertos de óleo, pra ser arrastado pra fora da arena.
A alegria dos faxineiros era perceptível em cada rosto mal humorado e no silêncio generalizado em que todos trabalhavam – com exceção do velho Postumus, que, feliz, assoviava e dançava num ritmo animado que lhe tinha surgido na mente como um relâmpago!
Mas, claro, muitas outras vozes também lhe surgiam na cabeça como relâmpagos, e, assim como não são dignas de serem narradas todas as vezes que esses dizeres mentais lhe fizeram vir trabalhar pelado, também não será narrado esse evento em particular. Temos a esperança que por mais musical que o acontecimento em questão seja, o velho Postumus inconscientemente compreenda essa omissão como uma expressão sincera de preocupação e apoio.
No meio da terra batida, porém, dois amigos discutiam, ou um amigo discutia e o outro fingia dar atenção:
- Não olha, você me entende, tenho certeza. Eu não estou dizendo que esse é um trabalho ruim, mas...
- Isso é exatamente o que você está tentando dizer. – Tiberius olhava pro chão tentando decidir como começar a varrer uma massa vermelha estranha.
- Não, não! O que eu estou dizendo é que esse trabalho poderia ter mais vantagens, entendeu? Alguma perspectiva, crescimento na carreira... – Disse Gaius, tentando encontrar coisas pra reclamar enquanto segurava, espetado no garfo de lixo, um braço humano inteiro decepado.
- Você esqueceu um pedaço. – Tiberius apontou pra um dedo faltando na mão.
- Eu sei, ainda não achei esse. Enfim, quero dizer, estamos nesse negócio a o que? Dez? Doze anos?
- Onze. - Tiberius varria o chão sem olhar o amigo.
- Onze anos! Esses espetáculos de gladiadores não são mais a mesma coisa, eles não vão melhorar, me entende? O público não quer saber disso mais?! Você não se preocupa com isso? – Gaius apontou o garfo na direção de Tiberius, fazendo o braço espetado esticar o indicador em sua direção.
- Sinceramente, acho que você tá reclamando de barriga cheia, nosso trabalho nunca foi tão fácil. Lembra daquela semana de batalhas Persas? Eu virei noites nessa porcaria pra dar fim naqueles elefantes mortos! Foi quase uma semana até alguém sugerir espetinhos de graça pro público!
- Você perdeu o fio da meada. Se hoje em dia o problema se resolve só arrastando a sujeira pra fora da arena, quem diabos vai precisar de faxineiros especializados em arenas gladiatoriais? – Gaius colocou o braço decepado no saco de lixo.
- Opa, opa, opa! Faxineiros não! Profissionais de limpeza e organização de eventos.
- Tanto faz. Eu tinha sonhos maiores caras, eu – Olha aí o dedo bem embaixo de você! - eu esperava subir na vida! Quem sabe algum dos nobres não ficaria impressionado com nossos serviços aqui e contratasse a equipe pra organizar uma orgia?
- Ouvi dizer que a grana preta está naqueles banquetes que as pessoas comem até vomitar. – Tiberius disse pelo canto da boca, olhando rapidamente em volta se outro alguém tinha ouvido.
- Oh, nem me diga, como eu sonho em limpar vômito do mármore! Mas não! Temos que ficar presos nessa espelunca! Nem a ralé da cidade vêm nisso mais!
- Olha, achei uma mão decepada com um anel! – Disse Tiberius limpando a poeira de uma mão decepada.
- E eu não culpo ninguém! Quem diabos pagaria pra ver dois gladiadores gordos, correndo em círculos fugindo um do outro, até que um tem um enfarto e cai morto? – Gaius olhava com desprezo pro único cadáver completo caído na arena.
Quatro homens, com nenhuma vontade de se sujarem, discutiam em volta do presunto vencedor como iriam encaixar aquele belo corpanzil no pequeno bueiro reservado para os dejetos humanos bem no centro da arena. O cara que resolveu o problema dos elefantes foi chamado, mas descobriram que sua criatividade era um tanto quanto repetitiva, e no caso, bastante antropofágica.
- Nisso eu tenho que concordar. Eles realmente ficaram largados depois que proibiram o uso de animais não é? Nada faz um homem entrar em forma quanto uma hiena faminta potencialmente correndo atrás dele toda semana.
Gaius tomou a mão decepada das mãos de Tiberius (oh, a ironia!) e puxou o anel até perder o fôlego. - Cara, deixa esse anel pra lá, o braço do gorducho já inchou, é de latão essa porcaria. – Disse antes de jogar a mão num dos homens que agora tinham prendido metade do gordão no bueiro.
- Lembra daquela vez que um cara foi pisoteado por uma girafa? Aquela foi uma sujeira a mais que eu não me importei de limpar! – Tiberius disse, num tom de confissão ao amigo, que o tomou pelo ombro com um tapa amigável nas costas.
- Viu só? Você também sente falta dos velhos tempos! Quando havia mais oportunidade!
- Nah, eu só odeio esses babacas oleosos de armadura que acham que vão ganhar a liberdade matando alguém.
Um dos gladiadores encostados na parede arrotou, enquanto o outro tentava se levantar – embora sua bunda imensa não o permitisse.
- Tudo que eu estou dizendo é que temos que pensar em alguma coisa. Organizar o pessoal, essa merreca não paga a indignidade que é nosso trabalho! Eu tenho mulher e filhos pra sustentar!
- Bom, eu só tenho um gato, mas se estamos falando de um novo plano de assistência dentário, eu estou contigo!
- Se vamos fazer isso, precisamos mobilizar os companheiros proletários!
- Chega de opressões imperialistas da classe dominante! - Tiberius franziu a testa - Onde é que a gente aprendeu essas palavras?
Gaius largou os sacos de lixo e andou até o centro da arena. Os quatro homens brigavam sobre quem era o culpado de entupir o bueiro, enquanto Gaius fez seu caminho entre eles e subiu nos ombros do cadáver entalado. Com o garfo de lixo ele bateu no capacete do gladiador morto, fazendo barulho como um sino e gritando pela atenção de todos.
- Companheiros! Já não estamos cansados de limpar o que nos dizem pra limpar, quando nos dizem pra limpar?
Os homens lentamente se viravam dando atenção ao maluco em cima do cadáver.
- Por acaso existe alguém que pode ser chamado de dono desse coliseu, considerando que todo esse espetáculo ridículo só existe por causa do suor de nossas testas? – Gaius olhou preocupado para as armas ainda jogadas no chão perto dos guerreiros - E pela colaboração desses bons companheiros fisicamente incapacitados!
Os gladiadores emitiram um rumor de aprovação
- Vocês já não estão fartos de tanto desrespeito? Já não se sentem motivados a se juntar a mim nessa revolução?
- É! Revolução! – O cara da idéia dos elefantes arrancou sua camisa e colocando-a em chamas na ponta de um garfo de lixo.
- Um pouco menos motivados que aquele cara, digo.
Um dos homens fez um sinal de reprovação com a cabeça e guiou o rapaz sem camisa pra parte interna do coliseu, dando tapinhas compreensivos em suas costas.
- Pois eu digo que é hora de tomarmos o que é nosso! Vamos começar a dizer as pessoas o que e quando nós vamos limpar!
As pessoas tiravam suas luvas e concordavam a plenos pulmões com cada frase.
- Temos que nos organizar em volta do que fazemos de melhor! Vamos utilizar esse espaço como bem entendermos! Vamos nos organizar em volta da limpeza e vamos limpar os bolsos dessa cidade!
- Nem todo mundo é bom em limpeza!- Uma voz ecoou solitária da arquibancada.
- Como? – Gaius apertou os olhos pra enxergar o homem na última fileira de assentos
- Eu disse que nem todo mundo é bom em limpeza! O Lucius por exemplo é muito bom em dança moderna interpretativa. Vamos nos organizar em volta disso também? – O homem apontou pra outro que dançava incontrolavelmente ao som de algo que ninguém podia ouvir.
As pessoas começaram a conversar entre si em dúvida.
- Ahn... Claro, claro, podemos encontrar uso pra isso mais pra frente. Eu acho.
- E quanto aos vendedores de salgadinhos? Esse negócio de limpeza é só um bico pra mim sabe? – Disse um homem segurando um algodão doce em cada mão.
Tiberius ergueu os braços ao lado do amigo, pedindo atenção:
- Todos aqui terão seu papel no movimento! Precisamos decidir o nosso nome!
- Frente unida dos trabalhadores da higiene! – um dos homens na arena gritou.
- Esse vai servir. – Tiberius sorriu pro rapaz.
- Não! Nós temos que ser os Trabalhadores Unidos na Frente Higiênica! Faz mais sentido que o título diga pra que viemos, não quem somos! – Um faxineiro da arquibancada gritou.
- Mesmos porque não somos todos trabalhadores da higiene. – Gritou concordando um pipoqueiro na arquibancada.
- Vocês são todos idiotas! Nós somos os Trabalhadores Higiênicos Unidos em Frente! – um faxineiro gritou levantando um esfregão.
- Você deve estar louco homem! Claramente esse é nosso hino, não o nosso nome! – Respondeu um dos faxineiros da arquibancada.
Quando um homem agarrou outro pelo colarinho, e outros dois começaram a discutir se o hino deveria ser em Lá ou em Ré, Gaius novamente bateu no capacete do cadáver, que tinha descido alguns centímetros pra dentro do bueiro.
- Seremos o Sindicato da Limpeza! – Gaius deu um pulo, e o cadáver deslizou lentamente pra dentro do bueiro, até desaparecer completamente, fato que arrancou palmas de todos os presentes.
- Que ótimo que todos gostaram tanto assim do nosso nome! A partir de amanhã, teremos mudanças por aqui. Coloquem os gladiadores pra correr voltas na arena! E cortem o açúcar deles!
terça-feira, 25 de outubro de 2011
Uma conversa em um carro
- Eu já te contei a minha nova tática infalível pra arrumar mulher?
- Puta merda, lá vamos nós...
- Lá vamos nós o que porra?! Nossa senhora, não posso te falar nada que você já chega com seus preconceitos pra cima de mim?
- Preconceitos?
- Preconceitos sim!
- Eu já te falei isso mil vezes: o fato de você ser anão e ruivo não tem nenhuma ligação com o fato de eu te achar um idiota sociopata. Mesmo quando você realmente é as duas coisas.
- Ah, e só por coincidência você menciona minha altura e meu cabelo também né?!
- É, me desculpa sobre isso. Eu também esqueci de falar das suas sardas estúpidas.
- Você realmente acha que não é um plano infalível não é?
- Claro que não é infalível! Eu conheço seus planos, fui parte de muitos deles, e tenho cicatrizes pra provar o quão não infalíveis eles são!
- Pois então fica de olho aí na direção e escuta esse, antes que eu decida deixar cicatrizes mais profundas do que as que você já tem.
- Mais do que as psicológicas? Pelo amor de Deus, não me faça ficar esperando, fale então.
- Então, a tática, é bem simples, se você quer arrumar uma garota, sem nenhuma chance de dar errado, pegue uma gordona!
- Sei... De quão gorda estamos falando?
- Poisé, aí entra a sutileza da questão, depende bastante. Gorda o suficiente pra não ter outras opções, mas ainda recuperável saca?
- Bom, eu saquei a falta de opções...
- Recuperável cara! Como em “o cérebro dela não é feito de marshmallow, com dieta e exercícios nós podemos corrigir isso”.
- “Nós”? Nós quem? Você?!
- Eu e a gordona oras, quem mais?
- Ok, agora realmente quero ouvir isso. Você é o que, o mini personal trainer delas?
- Entendo que seja complicado pra você imaginar, sendo burro e não criativo, mas é bem simples ó: eu me aproximo dessas baleias encalhadas e me torno íntimo delas.
- Anão ruivo... Sério que existe esse nível de desespero?
- Falta de opções, como eu disse antes, é bem mais fácil do que você imagina.
- Tá mas, nessa “aproximada” você chega a...?
- Não. Não meu Deus não! É tudo um processo, eu tenho etapas, eu tenho dignidade! Jamais me sujeitaria a isso! Apesar que realmente é difícil afastar as intenções delas.
- Eu não acredito que vou perguntar isso, mas como você “afasta” elas?
- É tudo uma questão de ser dedicado aos seus fins, você realmente tem que viver isso. Da mesma forma que ela vai me acompanhar em corridas matinais e o máximo que vai encontrar pra comer na minha casa vai ser legumes crus, eu digo pra ela que sou cristão do décimo sétimo dia, alguma merda religiosa desse tipo. Digo que estou me guardando pra uma pessoa especial, apenas depois do casamento. Eu até crio essa perspectiva de casamento, viu?
- Juro que não vi. E pra que isso aí afinal? Parece que é trabalho demais pra uma foda.
- “Trabalho demais”? Deus, esse é o problema cm os homens de hoje! Todo mundo já quer tudo pronto! Existe todo um prazer em cuidar e cultivar meu amigo.
- Em criar dependência emocional, enganar e criar um ideal de beleza fútil.
- Veja isso como você quiser, mas fato é que estou dando uma coisa boa pra elas! Saúde, auto-estima, bons hábitos, uma contagem de glicose no sangue com apenas duas casas decimais...
- Ah claro... E em troca elas te dão algo legal também né.
- Como você não pode acreditar! Imagina aí: toda aquela raiva reprimida, aquela cascata de hormônios em mudanças metabólicas, a privação de chocolate, uma cama...
- Ew. Imagino... Tenho calafrios imaginando inclusive...
- Não precisa ter! Elas já são malhadas nesse ponto, acha que eu não espero para colher os frutos.
- Poisé, o nojo é mais porque você está lá também. Mas enfim, vamos ver se eu entendi: você se aproxima de garotas morbidamente obesas, torna elas emocionalmente apegadas e força a elas uma dieta com o único propósito de criar um padrão de beleza específico para satisfazer suas próprias necessidades sexuais?
- Em resumo, basicamente isso aí.
- E incrivelmente, não é tão ruim quanto aquele seu ultimo lance com as garotas cegas.
- Poisé, aquilo era uma furada desde o início! Claro, elas não conseguem enxergar as sardas, mas a minha voz continua vindo de baixo.
- Imagino se algum dia você vai olhar pra trás e sentir orgulho do que você faz.
- Oh não, claro que não... Eu sou um reles escultor senhor. Eu apenas tiro a estátua que já existia dentro do monte de banha!
- Deus... Pegue suas coisas no banco de trás, nós chegamos ao prédio.
terça-feira, 13 de setembro de 2011
segunda-feira, 29 de agosto de 2011
A Longa Viagem 3
- Capítulo 2: Os que causam problemas e os que limpam a bagunça
Os magos são um pessoal muito esquisito se você quer minha opinião. Nenhuma cidade ou vilarejo duraria sequer um dia sem eles, no entanto, ironicamente, eles são os primeiros a serem culpados quando alguma coisa dá errado.
Os livros de história nos contam de dias a muito passados, dias em que a humanidade tinha espaço pra respirar. Sem árvores de trezentos metros, homens gorila homicidas, nem nada do tipo. Era uma época mais simples, porém com seus próprios tipos de problemas, as pessoas viviam sem o luxo das armas de fogo, rádios, geladeiras ou qualquer outra comodidade do mundo atual.
Então vieram os magos, os grandes responsáveis por consertar a sociedade. Essencialmente eram grandes engenheiros, capazes de preencher as lacunas de suas invenções com magia.
O desenvolvimento nessa época foi tamanho que todo mundo chegou a atingir certo grau de controle na magia. Acreditem se quiser, já encontrei velhos documentos com conjuntos de regras descrevendo um jogos infantis antigos. Um muito popular basicamente envolvia crianças atirando bolas de fogo umas nas outras. Soa familiar pra alguém?
- Para teorias antropológicas sobre o jogo em questão, recomendo: GOODMAN.White. Queimada: o sadismo em uma esfera de borracha. -
Como tratado anteriormente, a Teoria da Energia Ambiental forma a base da teoria mágica moderna, no seu postulado principal, afirma que a magia existe ao nosso redor, de uma forma muito pura e difusa. Nessa fase apenas as plantas podem aproveitá-la, usando-a para acelerar e melhorar seu crescimento. Daí parte a Teoria da Cadeia Alimentar, tão presente no senso comum do homem moderno. O caso é que nossos antepassados não sabiam de nada disso!
Chega a ser triste imaginar que eles não tinham percebido em que direção estavam indo.
Seres humanos desenvolvem suas capacidades mágicas a partir de sua dieta, bem como todos outros animais, a diferença é que podemos aproveitá-la pra fazer todo o tipo de coisa maluca. Nosso problema com isso tudo é simples: não só nós não sabemos quando parar.
Nós temos uma tendência natural a ser descuidados, sequer imaginamos onde toda a magia residual de nossos feitiços acaba. Os magos dos tempos antigos costumavam vazar magia residual como torneiras quebradas.
No início os efeitos não eram tão gritantes, mas com o tempo, o uso de todos aqueles feitiços e a criação de todos os itens e artefatos definitivamente deixou uma marca. A magia residual de nossas indústrias e de nossos próprios feitiços começou a infiltrar-se de volta na cadeia alimentar, quantidades absurdas integradas de uma vez só, que num processo natural demorariam séculos pra dar a volta no ciclo de absorção e putrefação.
Árvores ficaram mais altas, os animais ficaram mais ferozes e nós... Bem, nós estávamos ocupados demais pra perceber. Aconteceu rápido, mas a pior parte é saber que não tão rápido que não perceberíamos nossa loucura. Quando finalmente tomamos nossos machados em mãos já era tarde demais, as florestas não paravam mais de crescer, era quase impossível cortar uma árvore, os animais já haviam crescido e mudado o bastante para serem chamados de monstros e começaram a nos desafiar. Impérios foram quebrados e seus cacos foram deixados à sua própria sorte.
Eventualmente conseguimos nos levantar. Começamos a encantar melhor nossas armas. Começamos a ser mais econômicos e criativos com nossos feitiços e com a ajuda deles desenvolvemos novas tecnologias. Mas até lá, tudo o que tinha sobrado eram poucas grandes cidades, milhares de vilarejos isolados e a natureza selvagem.
Atualmente, os magos não são mais aqueles piromaníacos do passado. Eles principalmente ajudam na produção de bens; alguns são ratos de oficina, sempre buscando novos problemas que possam ser resolvidos inventando alguma coisa. Outros seguem uma carreira mais acadêmica e focam suas atenções na investigação da Teoria da Energia Ambiental, ou outra coisa parecida.
Nerds, a maioria deles. No entanto, Nerds úteis!
Aqueles considerados úteis por suas cidades ou vilarejos geralmente ganham largas verbas pra experimentar e mexer nas coisas que quiserem, mas alguns deles costumam ir longe demais e sofrer as conseqüências. Não, eles não ficam loucos! Eles simplesmente se empolgam, buscam resultados rápidos e se esquecem das diretrizes da magia, derramando um pouco a mais de magia aqui ou ali.
Os resultados costumam ser desde simples inconvenientes à catástrofes mortais. Vilarejos inteiros já encontraram seu fim simplesmente porque seu mago ficou um pouco animado demais com seus progressos.
E quem tem que limpar a bagunça quando as coisas dão errado? Caçadores. Caçadores são como a proteção que você coloca nas tomadas pro bebê não enfiar os dedos e causar um incêndio na casa. Bebês usando chapeis pontudos com estampa de luas e estrelas.
É preciso muito caráter pra se pegar uma espada e se sentar na borda da civilização observando os ermos.
Caçador é um termo genérico pra designar as pessoas que se especializam em proteger as cidades e vilarejos humanos contra a ameaça de monstros magicamente enriquecidos.
Em alguns locais é mandatório o serviço por um ou dois anos para os garotos, mas na maioria dos lugares por onde passei, a maioria deles é voluntários – talvez tenha algo a ver com os gordos salários que eles ganham.
Caçadores geralmente estão intimamente ligados a uma cidade ou organização patrocinadora específica, sendo geralmente fixos a esse território, mas existem os que protegem rotas de comércio ou regiões particularmente valiosas. Aqueles que operam independentes são os mercenários, mas são essencialmente a mesma coisa, às vezes se desvinculam da vila por simples empreendedorismo, e às vezes só aprenderam o ofício por fora e ainda não encontraram um empregador pra assinar suas carteiras.
Eles são os únicos capazes de navegar no ambiente em constante mudança da floresta, e por isso, são os responsáveis por patrulhar as regiões, procurar outros assentamentos e até por coletar recursos exóticos da natureza. Eles não se importam, eles conhecem os riscos, eles sabem o que poderia acontecer.
Eles também sabem que fazem sucesso com as mulheres aonde vão, e de quão cheias suas contas bancárias podem ficar.
Um novo vilarejo só consegue se estabelecer e atingir algum nível de desenvolvimento quando chega a um fino equilíbrio entre caçadores e magos. Magos demais? Seu vilarejo chamará a atenção dos monstros como um bolo de chocolate numa academia cheia de gordinhos. Caçadores demais? Seu vilarejo estará constantemente promovendo uma feira medieval, despeça-se dos banhos quentes, comida fresca e do papel higiênico.
Atualmente, a relação entre os dois grupos pode ficar muito tensa, especialmente por muitos de seus trabalhos demandarem cooperação.
Atualmente, a relação entre os dois grupos pode ficar muito tensa, especialmente por muitos de seus trabalhos demandarem cooperação.
Posso citar, pelo exemplo de um pôster de recrutamento visto numa cidade, " Mago precisa de caçadores jovens e corajosos! Torre de celular regional precisa de reparos, paga-se bem!". Tudo completamente normal, não fossem pelas letrinhas miúdas avisando sobre lagartos gigantes e a taxa de seguro contra desmembramento. Uma oportunidade unica para experimentar verdadeiras situações formadoras de longas e duradouras amizades, tenho certeza!
domingo, 28 de agosto de 2011
A Longa Viagem 2
- Capítulo 1: Sobre a fauna, a flora e aquilo que governa as duas
Numa época onde a informação é tão disponível e usada, até uma criança do jardim de infância sabe sobre os níveis de magia natural ao ambiente, bem como sabem da presença de Deuses reais no nosso mundo. Porém, em televisão, rádio ou jornal, nunca ouvimos sequer um pio sobre as implicações.
Como o leitor sabe, nosso mundo é principalmente coberto pela natureza, que aparece em todas suas formas, cores e sabores, sendo breve: planícies, florestas, pântanos e desertos – e qualquer grande projeto que tente avançar além de certos limites naturais geralmente acaba em um fracasso retumbante.
O que se ensina na escola atualmente é a teoria da cadeia alimentar: plantas absorvem a magia residual do ambiente para crescer, herbívoros comem essas plantas e absorvem a magia, carnívoros por sua vez comem os herbívoros. A magia corre pela cadeia alimentar até que o seu membro mais superior morra e devolva a energia ao ambiente na decomposição, bem como acontece com os nutrientes – a diferença é que as energias arcanas fazem tudo crescer. E em grandes quantidades, as coisas crescem rápido, a vida selvagem em locais ricos em magia pode ser extremamente ameaçadora. Um colono inteligente mapeia essas regiões, constrói o mais longe possível e tenta não cortar nada em direção a elas.
A verdade, claro, é mais complexa do que isso. Os efeitos da magia em cada ser vivo tendem a ser muito particulares e regionais: enquanto para o senso comum há apenas o super crescimento, em regiões mais afastadas das cidades, pode-se sim ver porcos voarem.
Da mesma forma, qualquer tolo sabe da existência material de Deuses, mas sua real natureza geralmente é amplamente ignorada por pessoas “civilizadas”, povos das florestas e druidas são seus adoradores primários. Um exemplo da nossa ignorância está no deus mais amigável à civilização às nos ossos olhos, adorado por todos nós simplesmente como um deus da colheita, esquecendo que ela não favorece apenas nós seres humanos, mas a vida no geral.
Não é incomum ouvir histórias sobre divindades que se dedicam a forçar os assentamentos que construíram muito longe a respeitarem os limites agraciados a eles. As divindades não são gentis com nenhuma criatura que cresça além de suas próprias necessidades.
Deuses são muito caprichosos e perigosos! São seres compostos por pura magia ambiental, nascidos quando quantidades absurdas de energia se acumulam em partes intocadas da natureza. Raramente se vê um Deus, a menos que sua aventura o leve muito, muito longe da civilização. Alguns dizem que quando se vê um Deus nascendo, seu cérebro entra em colapso simplesmente por não ser capaz de compreender a forma divina ainda incompleta. Mas eu não colocaria fé nessa teoria, uma vez que existem os que digam que observar o nascimento de um deus pode lhe dar desde extrema boa sorte à cura de doenças terminais. Algumas pessoas, com os bolsos fundos o bastante, chegam até a organizar expedições pra esses encontros. Este escritor recomenda que seus leitores a não percam oportunidades e participem de uma expedição desse tido, se possível enviando relatos do ocorrido! (Esse escritor também não se responsabiliza pelos ferimentos e/ou morte dos que embarcarem em tais aventuras).
As divindades são extremamente protetoras com o conteúdo de seus “domínios”, elas vagam livremente todos os dias e parecem exercer alguma forma de controle sobre o crescimento por onde passam. E todos eles tem essa obsessão com a vida em todas suas formas, o equilíbrio, e blábláblá! Deuses parecem servir como um equalizador natural, impedindo que o crescimento de uma espécie sufoque outra, e ocasionalmente passando sabões na humanidade em geral.
A maioria dos assentamentos humanos em suas fases iniciais tendem a manter-se em constante estado de alerta, é difícil definir onde exatamente aparecerá a área designada pelo Deus – marcas raspadas no chão, ou uma clareira que se abre da noite para o dia, isso, claro se as marcas realmente chegam a aparecer. Nas tavernas de cidades de médio ou grande porte você pode encontrar homens que esperaram tais marcas em vão, mas conseguiram voltar pra casa. Eles são geralmente os grandalhões de rosto branco como papel e com as mãos sempre trêmulas em volta de um copo.
Os Deuses são verdadeiros aborrecimentos, mas, ao contrário do que seu nome indica, não é impossível matar um Deus. Tudo que é necessário é certo grau de preparação e pessoal qualificado. Como vocês acham que as cidades grandes ficaram desse tamanho e sobreviveram por tanto tempo? Ganhando a ira de panteões inteiros, e andando em uma perigosa corda bamba.
Em certa ocasião, o comboio no qual eu viajava passava por terras pantanosas, e no meio de um terreno de atoleiros fizemos uma parada num vilarejo que eu nunca tinha ouvido falar, chama-se Colina do Mel.
Até cheguei a fantasiar que aquele deveria ser um lugar famoso por seus doces e bebidas, mas mudei completamente de opinião quando desci da caravana e comecei a andar com minhas próprias pernas: o chão era de uma lama grudenta que a cada passo parecia criar sucção e fazer um barulho esquisito nos pés. E justamente estávamos lá pelo barro e argila retirado na região.
Pelo o que pude levantar, a vila vinha tendo problemas com um Deus desde que cavou um novo poço de argila numa parte afastada no pântano; as pequenas construções que serviriam como alojamentos sumiam do dia pra noite, e o poço era parcialmente coberto, ninguém mais tinha coragem de trabalhar lá, quanto mais passar a noite no alojamento, tinham medo de sumir junto da madeira e dos pregos.
Cansados de viver a situação, o vilarejo, rico devido à rota de comércio, contratou uma equipe para matar o Deus do Pântano em questão, mercenários, auto intitulados como especialistas no serviço. Uma semana além do prazo, nenhum dos especialistas tinha voltado e todo o vilarejo já pensava ter sido trapaceado pela metade do pagamento que os homens haviam recebido, até que tiveram notícias dos homens.
Grudado com barro seco, nun um tronco de árvore bem próximo dos portais de entrada da cidade, encontraram um caderno enlameado, um tipo de diário aparentemente. Eu o reproduzo em sua forma completa a seguir:
DIA 6 – Isso é completamente estúpido! Temos viajado ao norte da cidade por dias e eu não vi nenhum “Deus”, só monstros maiores e mais horríveis. Essa é a maior furada que Toma já nos meteu! Onde ele estava com a cabeça pegando um trabalho desses? Não há razão pra isso, nos estamos apenas andando em [Um mancha de água torna o resto do texto ilegível]
DIA 12 – O pântano tem feito qualquer avanço ser quase impossível. Eu já tinha visto vegetação crescendo rápido antes, mas essa coisa... É mais rápida ainda! Corte uma vinha e em um minuto uma substituta cresceu no lugar, e então as cobras vão estar todas a sua volta, é como se a floresta estivesse retribuindo. Já perdemos cinco companheiros. Cinco homens bons que poderiam muito bem ter um trabalho de guarda, protegendo os muros de qualquer cidade, ao invés de estarem jogados na lama tentando matar um mito.
[um grande mancha de lama cobre um pedaço do jornal, com se o dono estivesse escrevendo e teve que se jogar e começar a correr de qualquer forma]...maldito monstro! Uma abominação, eu nunca vi algo parecido! Ele se movia rápido de mais, e nada parecia machucá-lo. Era uma coisa gigante, brilhava como se estivesse em chamas verdes, tinha algo como uma pessoa acorrentado a ele, mas acho que eram uma coisa só, perdemos oito homens praquela coisa. Sempre que tentamos flanqueá-lo ou fugir, toda a merda do pântano começava a crescer e bloqueava nosso caminho! Ele gritava, falava de equilíbrio, que éramos crianças mimadas, e aquele olho sempre [Outra mancha de lama]
SEPARADO. QUANTOS FUGIRAM? MIMADOS. TODOS SO-
[pequenas gotas de sangue]
A Longa Viagem
Enquanto existirem pessoas morando num lugar, elas vão querer de tempos em tempos ir pra outros lugares onde outras pessoas moram.
Porém, não é o bastante que hajam estradas, viajantes devem ter relativa segurança (ou uma ilusão dela) para permitir que o comércio como conhecemos hoje exista.
Porém, não é o bastante que hajam estradas, viajantes devem ter relativa segurança (ou uma ilusão dela) para permitir que o comércio como conhecemos hoje exista.
Infelizmente, estradas magicamente protegidas tendem a – por falta de uma palavra melhor – vazamentos. Elas atraem a “atenção” da floresta. Assim, a maioria das estradas é mantida por pequenos grupos itinerantes, equipes (algo mais próximo de gangues na verdade), contratadas para limpar e reparar os caminhos.
De tempos em tempos, quando os mercadores começam a não voltar de suas viagens, algumas grandes cidades enviam pequenas forças de assalto, bem treinados na arte de atrair qualquer coisa particularmente perigosa que esteja espreitando a estrada.
Mercadores sempre viajam em comboios e caravanas, são ossos do ofício. Jovens valentes e com espírito para aventura sempre encontrarão trabalho como guardas nessas caravanas, mas não é uma tarefa fácil: as rotas normais de comércio costumam durar meses, e as caravanas que perdem menos que uma dúzia de homens podem se considerar com sorte. Se esse jovem conseguir voltar pra casa após uma rota, ou ele será um veterano de guerra, cheio de cicatrizes de batalha, histórias e calafrios à noite, ou ele será um cadáver no freezer da caravana do seu empregador, isso se seu empregador for do tipo sensível – lembrando que seu empregador será um mercador, ou seja, faça suas próprias deduções!
Passar a noite fora da estrada de forma alguma é recomendado. Por isso, em intervalos regulares, estão espalhados ao longo da estradas pequenos mosteiros fortificados ou pousadas muradas e bem defendidas. Os preços são elevados, e é de bom tom contribuir com o algum serviço de guarda quando se passar a noite.
Um viajante em uma estrada bem conservada verá pouco dos horrores que se escondem na natureza, os refúgios podem ser poucos, mas ficam a poucas horas de viagem uns dos outros. Esses fortes hoteleiros chegam até capazes de dar algum certo grau de luxo para seus visitantes, o que torna alguns deles populares na cidade, vistos como locais para férias da alta sociedade atrás de aventuras exóticas.
Esses refúgios em especial são uma ótima oportunidade de emprego, um guarda de refúgio tem um salário substancial, mais que o bastante pra assegurar a aposentadoria de qualquer mercenário. Clientes nunca deixarão de voltar por causa de um talher sujo, ou de uma mancha no lençol, os refúgios, quando não são patrocinados pelas próprias ordens de comerciantes – seus maiores usuários – recebem subsídios das cidades próximas.
Agora, um viajante em uma estrada selvagem, ah, esse aí é outra história! Mato alto e árvores! Vários cantinhos escuros que são potenciais esconderijos de ameaças à vida e aos seus dedos, braços ou outros membros destacáveis. Refúgios são poucos e geralmente auto-suficientes, mantidos tanto por uma inabalável determinação, quanto por uma sorte burra. Donos de refúgios independentes geralmente são homens que jamais se deram bem com a civilização, e muitos deles escondem segredos mais escuros que a própria floresta à noite.
Uma coisa todos os refúgios tem em comum: em todos os pontos de guarda, ou todos os pontos do muro que atraiam o olhar, estão diversos entalhes. Mensagens curtas, epitáfios para amigos que nunca tiveram o luxo de um túmulo. Pequenas orações, pequenos desejos entalhados na rocha ou na madeira, desafiando a ira selvagem ao redor. Claro, há também obscenidades, xingamentos e palavrões, afinal de contas, são soldados, não poetas afrescalhados.
Muitos anos atrás, um amigo meu começou a catalogar as pichações ao longo da velha estrada oeste para Forte da Alvorada ( uma cidade até movimentada, fica à dois meses de viagem ao sul, se você tiver a sorte de encontrar uma caravana indo naquela direção eu recomendo!).
Era um cara sensível, acabou ficando muito impressionado com o que estava lendo. Ele acabou fazendo seu caminho seguindo a escrita de uma pobre menina (ela tinha alguns floreios ou outros bem identificáveis, dizia ele) enquanto ela sobreviveu ataque após ataque naquela estrada. Disse que ela sobreviveu por duas rotas até Forte da Alvorada, estava na sua ultima quando foi atacada por um urso do tamanho de um prédio de dois andares, bem no caminho para casa com dinheiro para sua aposentadoria. Ele encontrou seu memorial três refúgios fora de sua cidade natal. E havia mais centenas de histórias como a dela, todas catalogadas por ele nas mais variadas estradas, passando por cidades que eu sequer tinha ouvido falar antes.
O rapaz se sentiu tão culpado depois disso, que se recusava a viajar. A última vez que eu fiquei sabendo dele foi quando voltou pra cá por um tempo, acho que veio só pra entregar o que tinha escrito – colocou tudo ele mesmo em minhas mãos, disse que o correio chega com muito sangue no selo.
Ele queria que eu publicasse sua obra, queria que as pessoas das cidades soubessem sobre o que está financiando suas vidinhas confortáveis na cidade... então eu fiz o que eu pude. Você está segurando o resultado.
-- Prefácio: “A Longa Viagem: Amor, vida e morte nas estradas” por Damien Davis.
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