quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Sobre Cervos e Acidentes Automotivos

Imagine que você é um cervo, você está cruzando uma rodovia, é noite. Você pretende a travessia por nenhum motivo em especial, tudo que você quer no momento é chegar do ponto A – o bosque deste lado do asfalto, ao ponto B – o bosque daquele lado do asfalto. Talvez o ponto B seja um bosque muito empolgante, um lugar excitante e muito bem freqüentado, onde todos os cervos vão fazer coisas emocionantes e especiais o tempo inteiro, ou, talvez o ponto A só tenha ficado chato demais pra você; isso realmente não vem ao caso.

O que vem ao caso é que, ao observar a linha reta infinita da rodovia você pode ver dois círculos de luz vindo em sua direção. Não é uma estrada particularmente movimentada, logo, aquela visão é totalmente nova e desconhecida para você. Coincidentemente, o bosque também não é particularmente movimentado, o que diminui o barulho da região e faz o motor do carro rugir e ecoar nas árvores mais próximas – ironicamente, mesmo sem saber o que são aqueles dois círculos luminosos amarelos, você sabe que eles são perigosos.

O fato é: você não se move. 

Você parou no meio do caminho entre o ponto A e o ponto B (o exato centro da rodovia, completo com faixas brancas que brilham no escuro e asfalto grudento recém recapeado - chamemos esse novo e excitante lugar de ponto C), esquecendo completamente qualquer ímpeto inicial de chegar ao bosque do outro lado.

Os círculos viram jatos de luz nos seus olhos e você pode ver uma silhueta metálica e negra por trás deles. E mesmo quando o rugido do motor está perto o bastante para se transformar em um grito, mesmo quando você pode claramente sentir as pedrinhas bambas do asfalto vibrando contra seus cascos, você não se moveu sequer um passo.

Esclareçamos uma coisa: não é medo o que você sente agora. Medo foi o que você sentiu quando decidia colocar uma das patas nessa superfície negra, que, ao contrário do familiar e reconfortante chão fofo da floresta, parecia-lhe pronta para lhe engolir, como um lago frio de águas paradas, ou um simples e raro poço de piche. O medo acabou no exato momento que você pode sentir duas patas firmemente apoiadas sobre o desconhecido: você era desde então definitivamente um cervo com o conhecimento do que é o asfalto.

 A culpa de sua inércia é uma mente ocupada. É inevitável deixar de pensar no que você tinha feito até hoje: é deprimente imaginar que sua vida se resumiu a mastigar folhas e disputar fêmeas com outros cervos, mais deprimente ainda é descobrir que, mesmo quando essas duas coisas aparecem em grande quantidade, elas ainda não significam quase nada.

A natureza se cala com a proximidade da máquina. O tempo parece passar mais devagar quando o som dos pneus se torna audível, um som como de solas de borracha pisando sobre terra seca, mas fazendo isso na forma contínua de uma roda, que dividia espaço com o ronco grave e metálico do motor.

 
Você pensa como seria o som que seu corpo faria quando se encontrasse com o veículo, uma sinfonia harmônica: seus ossos que se estilhaçariam em afinação perfeita com o vidro, e, em emaranhado, seus chifres se confundindo com a deformação inevitável do metal. Uma melodia amarga de três vozes: o carro que finda a vida de um cervo, e um cervo que esmaga o corpo de um motorista no volante e inutiliza pra sempre um carro.

Seus músculos não dão a mínima dica de atividade, passa a ser uma questão de curiosidade aos 10 metros de distância. Você começa a contar, extrapolando um pouco, talvez cinco outros cervos realmente sentiriam sua falta. Passa a ser uma questão de desapego, quão ruins as conseqüências poderiam ser, quando de qualquer forma se conclui uma excessiva semelhança entre elas e uma possível fuga? Uma experiência pode ser um simples momento ou uma conseqüência, um mero caráter definitivo não é de forma alguma desanimador pra você. Talvez você ainda se engane, mas é um fato, você não vai se mover.

O motorista do carro pensa diferente, só agora ele vê um cervo parado na pista, pobre animal, hipnotizado pelos seus faróis como ele próprio, sem qualquer consciência, estivera até agora, resultado de dirigir infidavelmente em linha reta à noite. Ele gira o volante desesperadamente com as duas mãos como se por um momento estivesse virando o leme de um navio de piratas, tudo aconteceu tarde demais.

O carro desvia de você no ultimo momento, chocando-se com seu corpo apenas com o parachoque traseiro, próxima à roda traseira direita do veículo. Um impacto forte o bastante para jogar um cervo ao chão - um cervo pesado o suficiente pra oferecer um último obstáculo no controle do carro - jogando-o de frente contra uma árvore.

Enquanto pequenas labaredas de fogo levantam-se do capô, e dentro do carro a silhueta do motorista é coberta por fumaça, você se levanta com dificuldade. Sente certa dor no dorso, um corte fundo em sua lateral se exibe em um vermelho escuro, é um milagre não ter quebrado nenhuma pata ou  sequer uma misera costela. Pela primeira vez você sente uma sensação peculiar, diferente de tudo que você sentiu em toda sua vida, você se sente vivo. Estranhamente sente-se orgulhoso de si mesmo, triunfante sobre um inimigo. O inimigo, aquele que seria antes considerado um mero competidor, quando muito um predador, uma ameaça – ele era agora um pária.

Eis então a grande questão – desencadeiam-se, possivelmente, duas prováveis situações. Qual seria sua atitude entre as duas?

Com o tipo potente e recém descoberto de ímpeto, você voltaria ao seu meio anterior, o sobrevivente triunfante de uma situação de quase morte. Você se recuperaria, e seria mais forte do que nunca foi. Ao comunicar suas experiências com os outros cervos você sente-se plenamente capaz de alcançar status, uma posição simultânea de superioridade e liderança quanto aos outros, sua cicatriz sendo um eterno lembrete da sua capacidade de se impor e lutar contra qualquer desafiante, tendo por toda vida então seus desejos realizados.

Ou, em outra hipótese, aqueles momentos, que mais pareceram décadas, nunca mais sairiam de sua cabeça. Haveria o ímpeto, e certamente em relação aos outros, sua singularidade se destacaria e alcançaria méritos. Mas os méritos não mais lhe seriam tão atraentes, você não fica feliz por sua mera sobrevivência, você voltou para uma existência tediosa e sem sentido, uma existência que no momento crucial você tinha abdicado completamente. A curiosidade lhe tomaria as rédeas, nada de sua vida anterior se compararia àquele singular momento: um prazer oculto, um talento que gritava por ser usada, o tão bonito brilho das chamas, o agradável cheiro de fumaça. Você começaria a vagar, procurando seus novos ideais, com certeza contando com seu nove destaque e influência sobre seus antigos iguais.
Não é assustador quando tais hipóteses sequer podem compor uma questão de escolha para qualquer individuo? Um inicio de reflexão em qualquer um revelaria-nos a resposta óbvia.

Enquanto se dirige devagar de noite, por uma silenciosa estrada que corta um certo bosque como um rio de asfalto, poucos são visíveis os belos exemplares desse animal que, estranhamente, parecem postar-se de um único lado do bosque em uma disposição regular, quase simétrica (talvez por uma questão de praticidade). Nesses poucos, é facilmente observado um ar de apreensão, como um respeito ao carro. A linha organizada de animais porém, não deixa de gerar um certo grau de apreensão.

Ouvindo algumas histórias da região, você se surpreenderia como tão poucos cervos são necessários para pular de um lado da estrada e empurrar um carro compacto pra fora da estrada, onde a única coisa que o breu deixa escapar são os gritos desesperados dos motoristas presos entre as ferragens do carro acidentado, invariavelmente acompanhado pelo som de metal sendo pisoteado.

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